Tuesday, November 28, 2006

O algodão não engana...( 9º Episódio )



Foto:Hate_to_Love_by_MikomiDarkLightning

Clara despertou lentamente e olhou de mansinho para o relógio… 9h30 nem mais um minuto porque o tempo tem um passo certo. Enquanto projectava o olhar na mesinha de cabeceira deparou-se com um espaço invulgarmente vazio…o outro lado da cama.
Sim, porque aquela cama de casal tinha dois lados fortemente marcados e independentes.
O lado esquerdo encostado à parede onde os lençóis viviam numa perfeita desordem porque ali o caos era apreciado por ser um sintoma de liberdade. Era o lado do Tony, machista e dominador onde tudo estava a seu gosto…e ela sabia que nem valia a pena contrariar uma força da natureza, por isso limitava-se a sorrir e sempre que invadia temporariamente aquele espaço aproveitava sempre para ajeitar um pouco as rugas da roupa de cama… assim como quem não quer a coisa, com muito jeitinho e discretamente.
Agora, já o lado direito da cama era o oposto…mais arejado sem barreiras e com a luz da janela sempre a incidir na cabeceira. Os lençóis ali eram como cadetes em dia de inspecção na tropa…todos direitinhos e alinhados. Rugas no tecido…nem vê-las…lençóis sempre lisinhos e aprumados. É claro que este lado, só podia ser o lado da Clara, feminino e harmonioso onde a ordem vencia por unanimidade.
Mas hoje o lado esquerdo estava nu e sem exercer o seu direito de voto a ordem comandava aquela cama com maioria absoluta. Clara sentia falta da desordem… dos lençóis pendidos para o chão… do cheiro forte a conhaque que costumava empestar o ar daquele quarto. Até disso ela sentia falta!! Como podia ser, aquele cheiro a álcool costumava deixá-la fora de si… mas não …hoje sentia a sua ausência.
Não havia pó na sala porque todos os objectos estavam limpos e colocados nos lugares exactos. E isso esta manhã irritava-a profundamente, tinha vontade de cuspir para o chão, de abrir todas as gavetas da cómoda e deixá-las assim com a roupa toda de fora… sim isso seria o ideal.
Então sentou-se na cama e endireitou a cabeceira, depois ergueu os olhos e olhou em frente … mesmo em cheio na direcção do espelho. Não se achava feia, era até uma mulher com alguma graça de rosto perfeitinho e uns olhos grandes que o Tony costumava apelidar de pérolas selvagens… só que eles hoje estavam domesticados, sem garra nem ousadia no brilho. De certeza que estavam mortos…
No que diz respeito ao desenho do corpo, também considerava que não se saía mal… as suas curvas estavam bem delineadas e eram generosas mas sem serem demasiado dadas.
Sim ela até que era bonita, então o que tinha falhado ali? Porque é que nesta manhã estava ali na cama estupidamente a falar sozinha?
Então subiu-lhe pelo corpo uma raiva súbita que a deixou em brasa e em poucos segundos um candeeiro voou contra a parede caindo depois rendido no chão.
E lá ficou ele, desfeito em mil pedaços impossíveis de recuperar…
Clara sentia agora o inevitável arrependimento pelo gesto precipitado… sentimento de culpa e remorsos porque não ter sido capaz de respirar fundo antes de agir. PRECIPITAÇÃO!! Aquela palavra ecoava na sua cabeça como louca …
PRECIPITAÇÃO… sim talvez fosse ela a razão de todos os seus problemas. Talvez fosse nela que ela devia despejar toda a sua ira. Afinal ela tem tudo para ser culpada pela sua dor.
Foi ela que a atirou de cabeça para os braços do homem errado… foi ela que lhe mandou dizer sim quando outros lhe diziam não… até foi ela que deu aquele beijo molhado num dia de sol. Sim foi ela… sempre ela!
Palavras ditas cedo demais que bem podiam ter ficado mais algum tempo a marinar e a ganhar gosto antes de serem servidas à mesa.
Noites demasiado fáceis com orgasmos demasiado óbvios sentidos em posições demasiadamente previsíveis… se ela tivesse sido menos precipitada nas suas certezas e tivesse optado pelo e “porque não?” em vez do “gosto mais assim” se calhar ainda estava a dormir com um abraço cortando-lhe a respiração em vez de estar ali sentada com o corpo teimosamente livre e desprendido.
Mas Clara sabe tão bem que nada dura para sempre… nada é eterno para alem da dor. Essa sim! Dá voltas e voltas ao mundo mas regressa sempre algum dia ao ponto de partida… o teu peito.
E a verdade é que hoje são 11h30 menos minuto …mais minuto, a cama dela está imutavelmente perfeita e porque o algodão não engana… ela sente que alguém limpou o seu coração e nem um grão de poeira de recordação nele deixou…hoje ele voltou a ser apenas mais um quarto vazio.


Daniela Pereira-28/11/06

Monday, September 11, 2006

Clara..."la femme fatal" (the end) 8ºEpisódio




in "Love in Every Breath 2 by Alisia VR- deviantART

"O ruído da consciência "



Estava tudo preparado para a “Grande Noite", mas o La Féria não tinha sido convidado tendo em conta que o homem já não tinha idade para sofrer emoções fortes. Este era um acontecimento para ser vivido a dois...sem intrusos. Naquele quarto só estariam Clara e o seu Tozé, por isso todos os seres de duas patas teriam entrada proibida, o mesmo aconteceria com os de quatro patas que seriam afastados carinhosamente para casa da vizinha. Agora, quanto aos incómodos insectos com asas e ruídos de fundo é que a coisa não corria assim tão bem. Como a noite estava invulgarmente quente e húmida, existia uma espécie de hora de ponta para a comunidade de mosquitos que rodeavam o apartamento. Pois bem, os tradicionais insecticidas e mesmo as técnicas inovadoras para massacre de insectos para grande desespero de Clara não se revelaram muito funcionais. Assim sendo, o quarto de Clara e do Tozé encontrava-se habitado por alguns mosquitos profundamente irritantes. Mas esse teria de ser um mal menor! Clara, pensou numa solução alternativa para disfarçar a presença daqueles surripadores de silêncio e achou que um cd com uma música intima e convidativa seria o ideal para tornar o ambiente daquele quarto mais acolhedor. Para além, é claro, de ser uma bela forma de abafar os zumbidos dos mosquitos. Talvez, o Tozé com alguma sorte não desse pela sua presença...
Parecia estar tudo perfeito no seu pensamento, no entanto à medida que as horas passavam Clara começava a sentir que as dúvidas a assaltavam. Estaria a proceder bem? Seria esta a melhor forma de recuperar a sua relação?
Uma noite de sexo fervoroso seria suficiente para que o seu Tozé a voltasse a olhar com os mesmos olhos apaixonados? Havia uma voz que teimava em lhe dizer que não!! E esta voz que Clara ouvia retorquindo baixinho no seu ouvido era muito insistente e parecia saber o que dizia. Ainda teve por impulso a ideia de espreitar debaixo da cama para ver se estaria lá alguém escondido, mas logo percebeu que não, que aquela voz que ela ouvia era a dela. Talvez fosse aquilo, o que ouvia chamar de “Voz da consciência”. Sim, deveria ser, até porque tinha aquela mania de estar sempre a bater na mesma tecla algo que lhe era muito familiar. Clara era uma pessoa extremamente insistente e demorava imenso tempo a se dar por vencida em qualquer assunto. No emprego os colegas apelidavam-na de Clara a “bate pedras “ porque diziam que ela era tão teimosa e casmurra que era pior que uma pedra de tão dura que era de roer. Quando sentia que tinha razão em algo, não havia nada a fazer para a convencer do contrário. É que nada mesmo! Podiam ser vinte pessoas a concordar com o mesmo , a apresentar todos os tipos de argumentos possíveis e impossíveis mas se Clara achava que estava certa nas suas teorias nem o Papa a convencia do contrário.
Mas esta característica de Clara jogava muitas vezes a seu favor, porque fazia dela uma mulher cheia de garra e de convicções fortes e os homens apreciam isso nas mulheres. Ela podia até ter um lado frágil que a tornava numa eterna apreciadora de segurança, mas ela também sabia bem o que queria numa relação e não desistia facilmente de o conseguir.
Os homens que passaram pelas suas mãos consideravam-na uma experiência enriquecedora, invulgar e única. Mesmo quando só efectuavam curtas paragens no mundo complexo de Clara eles sentiam que depois de provarem os pensamentos daquela mulher, haveria sempre algo que nunca mais seria o mesmo no seu mundo de esfomeados.
Então, se Clara era assim tão decidida de onde viriam aquelas dúvidas que lhe estavam a esmagar o peito com tantas incertezas? Talvez Clara, amasse realmente aquele homem e isso parecia mudar tudo. Tornava-a hesitante até mesmo nas suas certezas, como se cada gesto agora não pudesse ser natural e tivesse que ser cuidadosamente planeado. Nada daquilo lhe fazia sentido, ter que pensar antes de agir? Onde estava aquela impulsividade que a fazia trepar uma árvore só para poder ver o luar mais de perto?
Sentia que estava a perder tudo aquilo, que os sentimentos estavam a tornar-se em nós cegos muito difíceis de desatar . Estava prisioneira de um medo e de uma insegurança que se preparavam com malícia para a tornar em escrava das suas vontades. Não podia ser, nenhum sentimento a poderia mudar, não era justo! Clara tinha demorado muito a moldar a sua maneira de ser, a assimilar todas as conquistas e a aprender a lidar com todas as derrotas na sua vida. Não era uma pessoa fácil, sabia-o bem porque a intensidade que possuía era muitas vezes como uma panela de pressão pronta a explodir a qualquer momento. Mas ela era assim, livre nos seus pensamentos e sentia-se bem a vomitar tudo o que a incomodava mesmo que para isso tivesse que sujar a imagem que as pessoas tinham de si. Sim, porque as pessoas por vezes olhavam para Clara como se ela ainda fosse uma criança cheia de sonhos e ilusões na cabeça.
Mas a cabeça da Clara hoje não estava para fantasias, estava até bem séria e compenetrada com graves pensamentos agendados na sua ordem de serviços.
Seria mesmo o sexo que estaria a falhar na sua relação? Não poderia ser algo mais profundo? Algo que não se rasparia do corpo só com uma montanha de lençóis suados!! Talvez fosse porque ela não se interessava afincadamente pelos mesmos gostos que o Tozé. Sim poderia ser essa uma das razões!
O Tozé era por exemplo gajo para sair todos os domingos e ir ver a bola com os amigos. Sim, ele saía religiosamente quase todos os fins de semana para ir à catedral do futebol...o Estádio do Dragão. Nos dias em que havia jogo, ele acordava mais cedo e raramente dormia bem na noite anterior. Por vezes, Clara até acordava a meio da noite porque ele gritar bem alto a contagem dos golos no relvado durante o sono. E para desespero da pobre, eram sempre vitórias de 3 a 0 e mais!! Isto é o que tem de bom os nossos sonhos...permitir desejar tudo em grande.
Depois dos jogos, Tozé ia beber a sua cervejola com os amigos para festejar as vitórias ou então para afogar as mágoas das derrotas. Tudo era desculpa, para uma bela rodada de cerveja num bar. Era uma atitude que por vezes a irritava profundamente, e por isso sempre que ele chegava tarde a casa Clara tinha a mania de refilar um pouco.
Dizia que eles podiam ter aproveitado a tarde de sol para irem dar um passeio à beira mar, para fazerem uma corridinha ou mesmo para ficarem sentadinhos no banco do jardim a namorar. Mas não, ele tinha logo que preferir ir ao futebol e deixá-la ali sozinha a dar de comer aos pombos. Uii, nesses dias era certo e sabido que ela ficava pior do que uma arara!!
Geralmente Tozé, não era homem para se exaltar e resolvia a disputa com imensa mestria. Atirava um olhar de cordeirinho e com um “desculpa linda” todo adocicado acompanhado com uma promessa de que na próxima semana o Porto jogava fora e eles já podiam passar o domingo juntinhos ele conseguia sempre chegar a um acordo.
O que Clara pensava agora, é que se ela em vez de passar a vida a atormentá-lo com o que ele poderia fazer opta-se por ir também com ele á bola...não seria uma atitude mais inteligente da parte dela? Até porque ela gostava de ver futebol, e era mesmo uma portista ferranha como ele só que não se manifestava tanto porque achava que não ficava bem a uma mulher ir praguejar contra os árbitros num estádio. E ela sabia bem que se fosse, ia ser pior que uma peixeira a apregoar o seu peixe!! Daí preferir ficar por casa e não arriscar fazer figuras tristes.
E mesmo que ela não fosse ao futebol com ele para manter a sua reputação imaculada, podia sempre ir com ele depois até ao bar do Xico Fula comer uns tremoços e beber umas cervejinhas. O único problema é que Clara não suportava o sabor da cerveja porque tinha um gosto muito amargo e ela era mais adepta de bebidas doces. Mas ela até que podia pedir como alternativa um sumo de maçã... daqueles sumos com gás que se vendem nos supermercados a preços baixos .Ela podia fingir que aquilo era cerveja! Não seria uma má ideia para que ela se pudesse confundir com o resto da malta .A cor era a mesma ou pelo menos era parecida e nem mesmo a espuma tradicional faltaria naqueles refrigerantes “carbonizados” porque eles têm sempre muito gás carbónico. Bem, esta não seria a palavra correcta para os mencionar, mas Clara pensava que deveria ser tendo em conta o que eles faziam ao estômago ao fim de algum tempo.
Enquanto fitava atentamente o tecto do quarto, ela ia ganhando a noção que existiam muitos momentos que ela não partilhava com ele. E mesmo parecendo pormenores sem grande importância numa vida a dois, estes poderiam bem ser os causadores daquele abalo que o seu relacionamento parecia estar a sofrer.
E foi por pensar assim, que Clara começou a reconsiderar a sua forma de abordagem. O Tozé parecia ter perdido o interesse por ela, estaria distante dos seus desejos e necessidades e ela sentia isso de um modo muito marcado nos momentos que com ele passava. Teria que existir uma razão para aquela mudança, um motivo...um porquê! De que lhe iria valer criar um ambiente avassalador para que o clima entre os dois aquecesse, se logo a seguir ele poderia simplesmente bater a porta e sair já todo regalado? Então, teria sido tudo em vão! Uma conversa franca poderia ser o caminho mais seguro para apurar toda a verdade.
Sendo assim, o melhor a fazer ,talvez fosse imaginar um jantar calmo a dois, com uma pitada de romantismo mas sem excessos, só mesmo um pouco de vinho para libertar a língua e ajudar a conversa a fluir com mais naturalidade. Depois ela iria simplesmente olhar nos olhos dele sem nunca desviar o olhar e segurando-lhe carinhosamente as mãos perguntaria apenas...ainda me amas?



Daniela Pereira- 10/09/06

Sunday, September 10, 2006

Clara ...uma aluna aplicada (7º Episódio )


Underwater-fetish by Dream-traveler in deviantART


Clara tinha aquela noite pensada até aos últimos detalhes. Desde a cor da sombra dos olhos que ia usar passando pelo tom das unhas dos pés e terminando nos palavrões que daria quando o seu Tozé estivesse em plena acção.Nada lhe tinha escapado porque Clara era uma verdadeira estratega e quando se quer travar uma guerra todos os ataques têm que ser bem planeados.
Por isso, a nossa Clara tinha muitos truques na manga e acessórios também! Sim, porque acessórios era coisa que não faltava naquele quarto. Havia de tudo naquela cama, porque ela tinha tido o cuidado de “encher bem a despensa”.
O homem da SEX SHOP ficou um pouco espantado com toda a artilharia que Clara decidiu comprar. E lá lhe foi explicando com cuidado, que ela e o seu Tozé só deveriam usar os “brinquedinhos” um de cada vez e sempre tendo atenção aos tempos de repouso que ela deveria dar ao seu guerreiro. Sim porque tanta acção matava qualquer um de exaustão.É que nem o Alexandre Frota com aquele cabedal todo seria capaz de dar conta do recado por muito tempo e olhe que o “negão”usa daqueles suplementos vitaminicos mas reforçados em dose cavalar.!!! Quando o homemzinho lhe dirigiu aquelas palavras Clara ficou toda atrapalhada e só desejou que o disfarce que usava a mantivesse incógnita perante todas aquelas pessoas presentes na loja.
A peruca loira até que não foi má escolha e os óculos de sol tamanho XL também foram uma escolha acertada. Clara estava mesmo irreconhecível com aquele visual dos anos 70. Não corria risco nenhum mas mesmo assim ela manteve o seu sotaque ucraniano. Sim, porque ela de tanto receber piropos dos mestres quando passava nas obras acabou mesmo por ficar craque naquela lingua.
Assim quando saiu da SEX SHOP Clara trazia uma tonelada de sacolas e todas bem recheadas. Vibradores de todos os tamanhos,bolinhas de borracha multicolores,as famosas algemas,botas de cowboy com esporas,cintos de ligas,tanguinhas multisabores e havia muito mas muito mais escondido naqueles embrulhos com ursinhos no papel.
Em casa, Clara teve tempo para ordenar tudo em cima da cama de acordo com a tabela de utilização prevista para aquela noite.Ela tinha tudo anotadinho num papel, prevendo mesmo a possível duração de cada um. Contas muito complexas mas que Clara rapidamente aprendeu a fazer ao devorar os manuais de instruções.
Para além disso, ela contava com uma ajuda preciosa...uma pilha de vídeos que ela alugou para se instruir mais um pouco nas artes do sexo.
Sem contar com as longas horas que ela ontem tinha passado colada ao ecran da televisão a examinar canais educativos que a tv cabo proporciona. E o que aquela mulher aprendeu ali!!..Meu Deus é que contado nem o diabo acredita. Mas o Tozé depois pode sempre confirmar ao diabo se ele se mantiver pouco crente nas histórias da Clara.
Depois da televisão, ainda tinham sobrado os vídeos alugados...e não foram filmes do tipo Música no Coração ou o Feiticeiro de Ozzzzzzz! Não, nada disso, eram todos filmes de alto calibre artístico . Na longa lista de vídeos escolhidos figuravam títulos sonantes, como por exemplo :” Lolita e o ladrão de calcinhas”, “O leiteiro volta sempre duas vezes à minha casa”,” Tarzan e as Chiquititas” ,” As dozes gajas de Hércules dão trabalho”... e é claro que Clara não se esqueceu de trazer os filmes que estavam no Topo de Vendas. Os famosos “Diabinhas na banheira não se apagam” e “Miss Betty e os seus cães amestrados”. Todos filmes com grandes cenas de acção sempre com manobras muito arrojadas da parte dos actores. Muitas vezes desafiando mesmo as Leis da Física sendo certo que até Newton desconfiaria da veracidade das suas descobertas depois de assistir aquelas performances...
Clara ficou imensamente curiosa em perceber como é que utilizavam animais naquele tipo de filmes.Sim, porque o nome de “Miss Betty e os seus cães amestrados” levou logo que ela imaginasse cãozinhos aos pulos na cama. E dificilmente isso poderia ser algo de excitante para um casal...ou será que seria?
Mas não tardou que Clara ficasse a perceber o porquê daquele nome tão curioso...eram amestrados...sim lá isso eram mas não tinham muito pêlo e mediam mais de 1,80 m...

Continua...

Daniela Pereira-31/08/06

Sunday, August 27, 2006

Clara..."la femme fatal" ( 6ºepisódio )


By deviantART :Suicidal Tendancies by =MatthewCooke-

Clara , la femme fatal ( PARTE I )


Clara não queria acreditar que o seu querido Tozé estivesse a perder o interesse por ela. Só a suspeita deixava-a imersa numa frustração desmedida.
Mas tudo indicava que sim...bastava saber ler os sinais! Os telefonemas tornaram-se mais escassos...as palavras trocadas reduziram drasticamente a sua frequência e já não eram tão acaloradas como antes.
Os gestos de carinho eram feitos quase automaticamente e na cama..e até mesmo na cama o Tozé tinha-se tornado numa máquina fria, que só a penetrava até que ela desse o primeiro grito indicando que teria atingido o pico do seu auge de prazer. Depois limitava-se a virar para o lado e a adormecer . Para quê perder tempo com abraços e beijos? Ele estava ali apenas para a excitar, o resto parecia agora supérfluo e desgastante.
Algo tinha mudado aquele homem...mas o quê? Essa dúvida tornou-se obsessiva e Clara sabia que não descansaria enquanto não conseguisse tirar todos os nabos da púcara.
Então decidiu que o melhor seria tornar-se num detective e começar a espiar todos os seus passos sem deixar escapar nenhum pormenor. Iria tornar-se na sua segunda sombra e nada ficaria em branco naquela cabeça pensadora.
Encontrou um velho caderno com algumas receitas de cozinha mal alinhavadas mas com várias páginas em branco. Ora lá estava um bloco ideal para apontar todos os gestos suspeitos do seu mais que tudo.
Teve ainda o cuidado de comprar uma caneta nova com tinta azul e bico fino, porque queria que as letras ficassem nítidas no papel para que nada pudesse ser apagado da sua memória.
E como eram passados os dias do casal?
Pois bem, o Tozé morava agora no apartamento de Clara e só ficavam afastados supostamente para frequentarem as suas rotinas diárias dos seus empregos.
Costumava existir um momento do dia que eles partilhavam...era o almoço. Sim, o almoço era partilhado por ambos como uma escapadela do stress e enquanto almoçavam aproveitavam para relatar os problemas e alegrias que iam vivendo cada um no seu espaço. Passavam aqueles minutos sem nunca olhar para o relógio e de mão na mão iam trocando sorrisos e carícias entre garfadas na comida.
Mas ultimamente isso deixou de acontecer...Tozé começou a encontrar desculpas para não almoçar com ela. Uma reunião de última hora na empresa, um projecto que precisa de ser avaliado até ao fim do dia...tudo servia agora de justificação para um Não dado.
Clara tem dificuldade em aceitar que possa haver uma traição...TRAIÇÃO...não essa palavra não combina com a sua relação. Ela ama-o demais para ser traída e acredita piamente que ninguém no mundo podia ser cruel ao ponto de cuspir nesse amor.
Mas como pode ela explicar a vontade súbita do seu par de ficar agarrado ao computador até altas horas da noite em vez de querer ficar agarrado ao seu delicioso corpo nu? É estranho...para ela é mesmo inexplicável aquela falta de desejo que ele demonstra agora. Por vezes, ela confessa que fica mesmo à espera que ele invente uma dor de cabeça para não ter sexo com ela!! Só lhe faltava mesmo isso, mas ele é demasiado macho para utilizar um argumento tão feminino ...não isso seria descer muito baixo no seu estatuto de garanhão.
Por isso, mesmo que o desejo estabilize no mínimo ela não duvida que ele há-de sempre de ter o “pau em pé” . Ter o “pau em pé”...era esta a expressão que Clara aprendeu com a sua mãe quando era moçoila e passava horas no vão da escada a receber conselhos para saber lidar com o bicho Homem. A mãe bem lhe dizia, que aquilo era bicho que não se podia confiar. Os homens são quase como as cobras usam o veneno para nos atordoar e se nós não lhes cortarmos logo a cabeça eles ainda rastejam em cima de nós até nos sufocar. Ai, como a mãe tinha razão!! Clara só tinha pena de não a ter ouvido com mais atenção...se calhar agora não estaria a sofrer tanto à custa de amar um animal assim.
Mas esta noite ela iria ser dominadora e implacável na cama de tal modo que o seu Tozé iria acabar por babar de novo por ela e salivar por muito mais daquilo que ela lhe teria para dar. Se isso não resultasse então Clara optaria pelo plano B e passaria a controlar o seu amado até lhe descobrir alguma falha na careca.
E assim pensou e assim o fez!!
Por isso, foi ás compras logo pela manhã e trouxe a lingerie mais sexy que viu na montra do shopping ...um conjunto de “femme fatal” como vinha escrito no rótulo da caixa. Era lindo todo preto e com rendinhas como aquelas que ela costumava costurar nas bainhas dos vestidos das suas bonecas. Depois comprou também umas ligas para as meias de rede para completar a vestimenta e escolheu um baton vermelho...mas mesmo vermelho tão vermelho que até metia inveja às camisolas dos jogadores do Benfica. Um perfume novo na carteira e duas horas gastas no cabeleireiro para decidir se aceitava ou não a sugestão da Mimi de um novo penteado com reflexos caju. Depois de muito espernear e de retorquir que aquela cor não lhe ficava bem com a pele e que a fazia mais velha, lá se deixou convencer por aquele tom infernal para colorir os seus cabelos. Aproveitou a onda do “deixa fazer se ficar mal que se lixe” e fez ainda uma depilação radical ao corpo todo, pensando que para pêlos em exibição bastariam os do seu Tozé ...o seu querido Tony Ramos de estimação. É verdade aquele rapaz era um autêntico matagal que só por sorte com aquele mato todo à disposição ainda não teria sido descoberto por nenhum incendiário.
Só que hoje Clara não descansaria enquanto não visse aquela floresta tropical em chamas. O raio da mulher estava mesmo decidida, ah pobre Tony!! Imaginem vocês que ela chegou mesmo a pensar em copiar algumas cenas de um filme e trazer um isqueiro para a cama para se divertirem um bocado. Mas felizmente para ambos, ela pensou segunda vez, e percebeu que realmente com aquele pêlo todo no peito do Tozé esta poderia ser uma brincadeira perigosa e desistiu da ideia ficando-se só por um par de algemas de plástico.
Horas antes de preparar o quarto para aquela noite de prazer, Clara teve o cuidado de dar mais uma olhadela para as fotografias das meninas que o Tozé guardava religiosamente no computador. Segundo ela, elas teriam todas um ar de sonsas e oferecidas a fazer beicinho...e caramba pensou ela ,se era daquilo que ele gostava era daquilo que ela lhe iria dar sem tirar nem pôr.
E lá voaram dezenas de saias e blusas do armário para cima da cama para que Clara pudesse escolher o fato que melhor se adequava ao que ela pretendia. Ahh porra como é que ela nunca tinha visto aquele vestido vermelho? Aquele sim era o ideal...justo..muito justo e curto...muito curto! O Tozé iria ficar de boca aberta quando visse a sua Clarinha com ele vestido. O pior era vesti-lo...faltava-lhe algum tecido dos lados e a oferta generosa de carne que Clara possuía, tornava aquela tarefa um pouco complicada. Mas ela não desistiria e aquele vestido iria acentar-lhe que nem uma luva nem que fosse a última coisa que ela faria à face da terra.
E assim foi.. depois de centenas de pulinhos e de puxões para aqui e para acolá o vestido lá entrou.
E que bem que lhe ficava pensava ela orgulhosa ao espelho. Sentia-se uma “sex bomb” toda poderosa com os seios arrebitados e com aquele movimento de anca treinado a preceito.
Agora sim, Clara nada temia e não seria uma pirralha qualquer que lhe tiraria o lugar de destaque na sua cama. Estava pronta para entrar na guerra dos lençóis e não saíria daquele quarto derrotada.. Tozé prepara-te filho porque aqui vai ela ...

Continua...

Daniela Pereira-27/08/06

Tuesday, July 11, 2006

Micro pensamentos




5ª PARTE



Não sei se ainda se recordam da nossa bela Clarinha, porque já há bastante tempo que ela não tem dado notícias suas. Julgo que a última vez que a viram, ela estaria na iminência de aceitar um pedido romântico para almoçar feito pelo cavalheiro que a socorreu durante aquele acidente no jardim ,que por acaso foi provocado por ele mesmo. Mas isso são pormenores que o destino não controla.
Pois bem, a Clara sempre foi almoçar com o galã e agora os dois saem frequentemente na companhia um do outro.
Hoje consigo ver os dois sentados numa esplanada a ter uma conversa acalorada com os olhares. Existe algo, que eu reparei agora, enquanto olhava para aquele cenário...aquela micro saia que a Clara hoje traz vestida, ou muito me engano ou ontem aquilo era um vestido? Curioso, desde o primeiro encontro entre a Clara e o Tozé dos Mariscos, que o tamanho da roupa dela tem vindo a dimuir! Deve ser do calor! Afinal estamos no pico do Verão e o tempo está cada vez mais abafado. Mas voltando à saia da Clara...pois bem, ontem à noite a Clara estava sentada precisamente na mesma esplanada de hoje, e trajava um vestido muito leve com um discreto padrão de flores. Assentava-lhe que nem uma luva! Que o diga o Tozé que não parou de olhar um minuto que fosse para o generoso decote que ela exibia. Foi mesmo com imensa dificuldade que aquele homem conseguir manter as mãos sossegadas na mesa, apesar delas estarem constantemente com vontade de fazer um pouco de exercício em torno dos seios da Clara. Mas pronto, o Tozé é um senhor e como tal portou-se à altura da sua classe. E é precisamente esse vestido tão sexy que hoje parece estar a tapar ...(se é que podemos dizer que aquele pedaço de pano minúsculo tapa alguma coisa) as coxas de Clara, só que com uma pequenina diferença em relação a ontem...é que hoje converteu-se numa saia. Numa saia e bem curta por sinal...
Ou foi isso, ou então o meu oftalmologista tinha razão e eu preciso mesmo de mudar com urgência de lentes. Agora fiquei com esta dúvida entalada na cabeça...mas adiante.
Este fenómeno de redução do tamanho das roupas da Clara nos seus encontros amorosos tem vindo a ser directamente proporcional ao número de botões que surgem desapertados nas camisas do Tozé. Um fenómeno muito curioso mas facilmente observável a olho nu. Vou já explicar-vos onde é que eu me baseio para aplicar esta teoria fantástica...

Por exemplo, neste momento, a Clara cruzou a perna e a sua micro saia reduziu ainda mais o volume de carne que revestia...ora este facto induziu de forma quase instantânea ao desapertar de mais um botão na camisa amarela do Tozé. O que leva a crer que daqui a algum tempo, pode tornar-se complicado encontrar um pedaço de perna da Clara ainda coberto e um botão apertado na camisa do Tony Ramos...eu disse Tony Ramos? Perdão, eu queria dizer Tozé dos Mariscos mas aquela penugem a sair do peito do rapaz até me confundiu as ideias por momentos. Credo, este espécime é provavelmente uma das provas que os Homens descendem realmente dos macacos...as mulheres também, mas essas descobriram o segredo das pernas de seda logo conseguem disfarçar muito melhor a sua origem.

Agora voltando à nossa história, que é sem dúvida o que existe de mais semelhante à história da Bela Adormecida nos tempos modernos...pronto, eu sei que hoje em dia existem algumas versões muito liberais dessa história. Versões que incluem príncipes que deslizam em terrenos acidentados com a sua BTT em vez de se deslocarem num cavalo branco e donzelas em apuro engolidas por ondas enquanto fazem surf. Não parece muito romântico, mas o romantismo está lá .Talvez esteja é um pouco mais bronzeado do que é costume e bastante mais descascado mas os beijos e as promessas do seremos felizes para sempre ainda se ouvem. E a nossa Clara é uma romântica incurável e uma verdadeira Bela Adormecida, e o Tozé? Bem o Tozé..o Tozé é o príncipe com que todas as mulheres sonham ou algumas...pelo menos duas ou três. Acho que estou a ser demasiado optimista, tirando a Clara que parece que precisa que eu lhe marque uma consulta no meu oftalmologista ,nenhuma mulher pode considerar aquele Homem um príncipe dos seus sonhos...ou será que pode?

Daniela Pereira

continua...

 

Monday, July 10, 2006

Um príncipe português...( 4º episódio )


4ªPARTE


Enquanto Clara fazia brilhantemente o papel de Bela Adormecida no chão do jardim, ecoava uma voz insistente que ia chamando por alguém.
Ela fez um esforço para afastar aquela sonolência involuntária e lá conseguiu ouvir as palavras que projectavam directamente na sua cara.
- A menina sente-se bem? Está-me a ouvir? Ia soletrando a voz com os décibeis um pouco altos mas com palavras muito delicadas .
Que maravilha! pensava a Clara aquela palavra “menina” foi um como um lifting e em segundos pareceu-lhe ver alguns anitos a irem pelo cano abaixo.
Com um sorriso parvo espetado na cara, ela lá foi dando sinal de estar quase pronta para acordar.
O homem que a abanava de um lado para o outro como se ela fosse uma omelete ao lume , não se devia ter apercebido desse sorriso porque já erguia a mão bem alto para lhe pregar mais um tabefe. Só de pensar no efeito daquela mão pesada no seu rostinho ela estremecia. É que ela tinha uma pele muito branca e delicada e com tanto estalo ia ficar parecida com um pimento de tão vermelha.
Talvez fosse a altura ideal para ela começar a pensar em reagir e dar-lhe uma canelada, para ver se ele deixava de ser tão cego.
E ele lá continuava desesperado refilando para as paredes , objecto que não encontraria com grande facilidade no meio de um jardim ao ar livre. Mas ele não desistia de se recriminar...
- Porra, mas o que é que eu fui fazer? Merda para este vento...da próxima vez colo o guarda chuva à palma da mão para ver se ele assim não foge! É que é preciso ter azar, esta gaja tinha logo que se meter à frente do cabo do guarda chuva...Tanta direcção, para esta merda seguir...e não podia ter escolhido melhor trajectória .Tinha logo que se ir espetar na cornadura desta tipa.
E pronto, Clara não tinha mais dúvidas! Ela só podia ter morrido e aquela voz meiga e doce só podia ser a sua recompensa por ter sido uma santa durante toda a sua vida.
-Olha o caraças da gaja que não acorda! Gritava ainda a voz meiga, agora já com uma pontinha de rouquidão que a tornava ainda mais atractiva.
Ela só não compreendia muito bem, onde é que os anjos aprendiam a ter músculos, é que aquele tinha uma força que não era para brincadeiras.
A muito custo, Clara lá conseguiu balbuciar algumas palavras confusas:
-Eu estar bem! Tu ser muito bruto!
O alívio que aquelas palavras reconfortantes teriam provocado na alma daquele homem era impossível de descrever. Parecia que lhe tinham tirado o mundo das costas.
-Ah mulher, ainda bem que não foi desta para melhor. Pensava que estava lixado!
E Clara, não sabia bem porquê mas sentiu que mais um sorriso apatetado se preparava para eclodir dos seus lábios. Desta vez, ela ia olhar bem para aquele homem que tão carinhosamente a tratava, pois queria observar com toda a atenção cada pormenor do seu corpo.
Abriu os olhos à velocidade de rajada e deu de caras com o que havia de mais parecido com um príncipe num país como Portugal. Bem, Clara sabia da existência de alguns pseudo-príncipes portugueses, que conhecia bem da revista “Trombas do Jet Set “que ela comprava sempre que passava pelo quiosque do Zé Maria. Homens sempre bem vestidos...ou melhor alguns homens bem vestidos, porque é feio dizer mentiras, desfilavam os trapinhos nas festas Vip ou então sentavam aqueles traseiros moldados a bisturi nos seus carros importados. Mas é claro, que homem que é Homem chega sempre às festas acompanhado com no mínimo dos mínimos duas mulheres elegantes...uma loira platinada e uma morena tingida.
Se na rua ainda encontrar uma ruivita, de preferência com sardas, para dar aquele ar que a cor do cabelo até é natural e tudo...está garantido o sucesso daquele espécime para toda a noite.
Mas aquele seu príncipe, louro e com uns desgraçados de uns faróis azuis a servir de olhos, era uma perdição para uma “menina” como ela. Caramba,isso não se faz! Ainda há poucos minutos Clara ia batendo as botas e Deus ainda insiste no trabalhinho mandando-lhe aquele pedaço de homem digno de provocar um ataque cardíaco a qualquer mulher mais distraída.
- Estás-me a ouvir ou eu estou para aqui a falar para o boneco? Queres vir ou não trincar qualquer coisita comigo? É que eu já sinto um furo na barriga de tanta fome! Ou tu vens já ou eu estou aqui e estou a bazar!
E como seria possível para Clara recusar um convite tão amoroso como este? Só se ela fosse doida é que diria não aquela simpatia de homem.
-Sim! Sim!Ohh sim...respondeu-lhe ela enquanto removia a tonelada de folhas secas que tinha encravada nos cabelos e que teimavam em multiplicar-se na sua cabeça como se fossem coelhos.

continua

Daniela Pereira

A tenda da verdade...(3º episódio )





Clara corria pelo passeio com aquela sensação que estaria atrasada...mas para quê? Hoje nem sequer trabalhava porque era Sábado mas mesmo assim ela não conseguia parar de correr. Tinha que chegar a qualquer lado, mas aonde ? não sabia, mas tinha que chegar a horas.
Ontem, ela tinha ido com uma amiga, bem uma amiga não seria, talvez fosse melhor dizer que tinha estado com uma colega. Uma mulher muito diferente da Clara, esta era mais arrojada sempre com aqueles decotes provocantes e o silicone todo à mostra. Aquilo irritava-a profundamente, tanta ousadia para quê? Não seria bem mais sexy, uma blusa com os botões estrategicamente desapertados apenas para deixar àgua na boca. Qual seria a piada de oferecer a sobremesa sem passar pela degustação do prato principal?
Mas que os homens que engatavam a colega todas as noites gostavam daquele ar despojado, isso Clara não o podia negar. Era um facto consumado e sem possibilidades de ser contrariado porque as amostragens estatísticas que passavam pela sua cama eram a prova do seu sucesso.
Pois bem, ontem tinha ido passear com a colega atrevidota até ao parque da cidade. E foi precisamente no parque que elas viram a Tenda da Verdade. A Tenda da Verdade, só o nome gravado naquela placa mal amanhada suscitava logo uma curiosidade tremenda. Clara, não era uma mulher muito crente em videntes, aliás tirando os horóscopos que ela gostava de ler nas viagens de comboio não acreditava em mais nada. Mas tinha curiosidade em ler as previsões do seu signo porque tinha a sensação que a vida assim era mais fácil com o destino todo agendado nos astros. Nem precisava de se preocupar com os seus actos do dia a dia, bastava folhear a revistinha e ler a previsão para o seu signo e tudo correria pelo melhor. Santa ingenuidade das pessoas! Como se aquilo altera-se algumas coisa pensava ela com um sorrisinho irónico a descair nos lábios. Lembrou-se então momentaneamente daquela mulher morta na estrada e surgiu-lhe a ideia de a ver sentada num café horas antes do fatídico acidente com a revista nas mãos lendo o seu destino apontado em letras miúdinhas. Será que ela leu que não era aconselhável atravessar a rua sem olhar ? Não lhe parecia que os astros fossem assim muito rigorosos nas suas previsões, se não teriam mesmo avançado com o nome da rua a evitar. Mas não, no máximo dos máximos diriam :”Cuidado, hoje o dia estará propício a acidentes ou então “Poderá surgir à sua frente uma ocasião que lhe poderá mudar a sua vida de um modo repentino e definitivo...” Vendo bem, as duas hipóteses estariam correctas, mas a última apesar de mais subtil descreveria bem melhor o azar daquela mulher.
Se realmente aquela senhora tivesse no seu horóscopo uma previsão destas, então Clara passaria a olhar com mais atenção para aquele quadradinho com as previsões diárias. Apontaria numa agenda todas as palavras e conselhos descritos. “Deverá ver-se livre de todas as ligações ao seu passado...” E pronto, lá iria Clara atirar com todas as roupas com que se passeou coladinha ao seu ex- namorado até aquelas que nem ficaram muito tempo vestidas no corpo, porque o Martins preferia muito mais vê-la sem elas. Ele tinha uma obsessão pelas curvas do seu corpo que era uma loucura. Até houve uma vez numa esplanada em que sentiu que ele se preparava para a despir em público em plena luz do dia ,felizmente para ela , ele ficou-se por um strip com o olhar. Teria sido uma vergonha mas uma vergonha tremendamente saborosa!
Depois seria a vez das fotografias e das recordações guardadas no baú. Tudo para a fogueira e sem hesitar. O calor dos seus corpos no Verão esfregado na areia da praia, os mergulhos nas ondas despidas e os beijos penetrantes com sabor a sal ... tudo reduzido a cinzas. E isso porque o Martins era grande demais para caber na sua lareira...se não seria mesmo aquele corpo bem torneado e aquele sorriso Colgate que ela queria ver extinguir-se nas chamas. Só de pensar nisso, Clara não aguentou e deu uma enorme gargalhada bem no meio do passeio e em plena hora de ponta. Foi o suficiente para que ela sentisse uma vontade irresistível de entrar na agência de viagens mais próxima mas não para procurar um destino de férias mas sim para comprar um bilhete de fuga para outro planeta depois da figura triste que tinha feito à frente de todas aquelas pessoas. Que vergonha, meu Deus!!!



Clara desapareceu por momentos daquelas pessoas que pareciam mirá-la com desdém depois daquela gargalhada portentosa que ela não tinha conseguido amarrar na garganta.
Passaram alguns minutos, não mais de cinco e Clara respirou fundo e enfrentou de novo o ar frio da manhã porque ela sabia que hoje tinha uma missão e que não podia ser mais adiada.
Recomeçou então a sua corrida até ao Parque da Cidade onde iria encontrar-se cara a cara com o seu destino. Pelo menos essas tinham sido as palavras do velhote com dentes doirados que lembravam os trolhas ucranianos com os seus sorrisos de oiro maciço.
Aquelas palavras ditas com firmeza mas em tom de surdina não largavam a mente de Clara.
Passadas vinte e quatro horas as palavras ditas naquela tenda ainda estavam frescas e o coração ainda batia acelerado sempre que elas ecoavam no seu peito. “Senhora, amanhã quando o sol nascer vai ter seu encontro com o destino e ele não lhe irá sorrir duas vezes...”
Que raio queria dizer aquilo? Encontrar o seu destino ... e ele não lhe irá sorrir duas vezes!!
Seria um mau presságio para ela ou pelo contrário seria um sinal de que algo de bom estaria para lhe acontecer e era preciso que ela estivesse bem atenta para não o deixar passar despercebido.
Porra, como ela detestava aquela sensação de dúvida assaltando-lhe os pensamentos à mão armada.
Desde de miúda que Clara detestava dúvidas...detestava não, detestar era pouco ela simplesmente tinha um ódio de morte aquele formigueiro pouco concreto que lhe percorria o corpo quando não achava uma resposta plausível para as suas perguntas.
Os amigos apontavam-lhe fortemente essa sua característica e diziam-lhe mesmo que a ansiedade que ela criava em torno de uma simples dúvida não era normal. “Ficas paranóica Clara, vai com calma amiga...relax!!!” Relax, relax... eles que metam o relax naquele sítio, pensava ela furiosa sempre que ouvia um conselho para ela tão descabido. Mas nunca o dizia, baixava apenas a cabeça ligeiramente e esboçava um sorriso amarelo e este já não lhe lembrava os ucranianos era mais típico dos chineses. Só que os chineses ela não encontrava muito nas obras da sua rua , era mais na loja dos 9 euros que por acaso até nem ficava longe de sua casa.
Clara lembra-se bem de um dos empregados dessa loja sempre muito sorridente e impecavelmente vestido a receber os clientes com palavras afáveis. Era bem engraçado o Mister Ho, como ela gostava de chamar aquele homem em miniatura. O Mister Ho era um homem bastante apetitoso, deliciosamente compacto e educado. Ai, o que ela já tinha pensado em pedir emprestada uma daquelas caixas do supermercado que são usadas para empacotar as remessas de bolachas e encaixotar o Mr Ho lá dentro.
Depois era só levar para casa a encomenda e estaria pronta a consumir naquela mesma noite.
Se um dia ela ganhasse coragem, encaixotar ...encaixotar se calhar seria um pouco agressivo mas convidá-lo para confeccionar um crepe chinês com recheio “à la portuga” no chão da cozinha !!
Bom, essa ideia não seria posta de parte se surgisse uma oportunidade, até porque de certeza e aqui ela não tinha qualquer dúvida, que aquele Mr Ho também não se importaria de trincar um belo pedaço de carne rosada não etiquetada.
Ainda estava meio atordoada com as sensações que aquela ideia lhe causavam na cabeça, quando se apercebeu que estava novamente cara a cara com aquele local misterioso. A maldita tenda da verdade que não a tinha deixado dormir nem por um segundinho esta noite. Tinha passado a noite toda a contorcer-se na cama e a esborrachar-se em cima do corpo da sua visita nocturna do sexo masculino.
Ele bem se queixou que Clara estava distraída e que os seus gemidos não eram tão intensos como de costume. Talvez ele quisesse que ela uivasse como um lobo com cio ou algo do género!! Era irritante para ela ouvir aquela afirmação estúpida e por mais que ele se queixa-se da sua frieza ela continuava muda e com os olhos fixos no tecto enquanto deixava que o corpo balançasse ao ritmo por ele imposto.
Uma rajada de vento levou-lhe a fita do cabelo como recordação e Clara teve que abandonar os seus devaneios para se preocupar como a iria recuperar de cima daquele ramo.
Então decidiu saltar bem alto até sentir que os seus dedos conseguiam arrancar a fita das garras daqueles galhos . Estava tão concentrada no seu trabalho “herculiano” que nem ouviu alguém gritar para ela ter cuidado.
Num curto espaço de tempo, Clara caía prostrada no chão derrubada como se fosse uma fruta madura.
Nem percebeu porquê, mas a cabeça doía-lhe e da sua testa pingavam gotas vermelhas que lhe sabiam a sangue quando lambidas. O tempo devia ter mudado porque agora ela só via nuvens brancas pairando sobre os seus olhos e ainda à pouco o sol brilhava lá no alto todo orgulhoso.
Não lhe apetecia mais pensar, sentia sono...muito sono e não iam ser aquelas bofetadas no rosto que aquele homem lhe estava a dar que a iriam impedir de sonhar mais um pouco.
Boa noite! Soletrou Clara antes de fechar os olhos em câmara lenta...


continua...

Daniela Pereira







Os anjos não vestem batas brancas...( 2º episódio )


 



São agora três e meia e Clara já não se passeia por entre as montras do Centro Comercial. Com o seu passo decidido, vai-se afastando da confusão e do belo vestido preto que ficou na loja de roupa.
Ainda não tinha dado mais de vinte passos para lá da saída do Centro Comercial, quando ouviu um grito lancinante que ameaçava perfurar-lhe os tímpanos de tão agudo que soara.
Num gesto involuntário leva as mãos aos ouvidos para se proteger daquele barulho agressor e para sua surpresa alguém quase que a derruba ao passar por ela numa corrida desenfreada.
Clara fica um pouco atordoada com o incidente, mas rapidamente recupera o equilíbrio e apressa-se a procurar o culpado da sua quase queda. Olha à sua volta, mas não vê ninguém... o passeio está simplesmente vazio, como se as pessoas se tivessem evaporado. Na cabeça de Clara, surge então a imagem daquele gelado que ela por distracção deixou derreter nas suas mãos quando ficou a olhar fascinada para um casal de namorados que trocavam juras de amor mesmo ao seu lado.
Era parecido com o que estava agora a acontecer bem à sua frente... num minuto a rua estava cheia de pessoas e o seu gelado de camadas de natas e chocolate, mas só porque ela se distraiu por breves momentos a rua estava agora vazia. Assim, como o seu gelado que com o calor daquela tarde derreteu até restar apenas o papel prateado que o envolvia. E tudo, só porque ela se apaixonou e não conseguiu desviar o olhar daquele cenário romântico na praia. Existia realmente ali um fio condutor entre aqueles dois instantes vividos e Clara sentia que o tinha encontrado.
Ainda estava absorvida nos seus pensamentos, quando escuta um barulho estranho. Foi quase como se estivesse a ouvir o senhor Mendes do talho a quebrar os ossos da perna de porco com o machado. Sim, pensava ela satisfeita, era mesmo esse o som que acabava de ouvir.
Procurou então perceber o que tinha afastado as pessoas do seu caminho rotineiro e de onde teria vindo aquele som peculiar. Foi então que viu finalmente um amontoado de pessoas que se acotovelavam para se aproximarem de alguma coisa que Clara ainda não conseguia deslumbrar de tão espessa que era a barreira formada à frente dos seus olhos.
Decidiu aproximar-se, mas sem saber porquê usava passos lentos e indecisos como se por alguma razão desconhecida o seu corpo lhe disse-se para não avançar mais. Mas Clara, sofria da mesma doença que afecta todos os Homens à face da Terra e provavelmente também nos seus arredores...a maldita da CURIOSIDADE!!! Por isso, lá se foi aproximando do local do enxame mas sem deixar de sentir uma sensação de aperto no peito que lhe ia roubando o fôlego em cada passo dado.
Abriu caminho por entre todas aquelas costas transpiradas que lhe barravam a visão e ficou paralisada diante do horror que jazia ali perto dos seus pés.
Na estrada estava uma mulher ainda jovem deitada no chão totalmente imóvel de olhos parados e com o corpo manchado de sangue. Clara ainda tentou ver-lhe o rosto com mais pormenor para medir-lhe a idade , mas rapidamente surgiram dois vultos vestidos de branco que se debruçaram sobre a mulher tapando-a por completo com um lençol branco feito de um tecido baratucho.
Ergueram a mulher no ar e levaram-na com eles, mas Clara reparou que apesar de eles estarem vestidos de branco não pareciam ser anjos. Até porque Clara, ainda se lembrava de todas as imagens do seu livro de catequese de miúda e em nenhuma delas os anjos vestiam batas brancas...


A jovem mulher que Clara viu estendida no chão já cadáver, foi transportada por uma ambulância pintada de branco e ela olhava atentamente para o fundo da rua enquanto a via desaparecer naquele meio de transporte peculiar.
Na cabeça ainda guardava uma leve recordação dos traços do rosto daquela pobre mulher que viu a vida ser ceifada precocemente. Ainda era jovem, deveria ter segundo os seus cálculos mentais mais ou menos a sua idade. Talvez fosse um pouco mais velha, uns quatro ou cinco anos porque havia no seu rosto algumas rugas a mais do que no dela. E as rugas são o melhor indicativo para a idade de uma pessoa... são quase como os códigos de barra nos produtos do supermercado que nos indicam todas as características do produto que enfiamos para o cesto. As rugas são o nosso código de barras, porque naquelas linhas disformes está marcada toda a nossa vida sem direito a omitir os dias menos favoráveis. Está tudo lá registado e bem visível aos olhos de todos num simples franzir da testa.
Como teria sido a vida daquela mulher minutos antes de ter tido a ideia fatal de atravessar aquela rua?
Ela tinha um aspecto cuidado, vestia-se bem e usava um perfume caro o que seria um indicativo bem claro da presença de uma boa conta bancária no banco.
Talvez estivesse atrasada para retornar ao seu emprego onde deveria ocupar um cargo importante, com bastante responsabilidade e talvez por isso mesmo tenha tido aquele impulso de correr para a rua sem olhar á sua volta. Sim, aquela era uma hipótese provável no seu entender... mas ela ainda pensava noutras possibilidades.
Uma era difícil não lhe vir à cabeça naquele momento, até porque ela mesma também já tinha pensado nela como sendo a solução definitiva para todos os seus problemas... uma tentativa de suicídio bem sucedida.
Se calhar aquela senhora sentia-se muito sozinha, sem o carinho de um homem ou sem um filho nos seus braços. Ficou cansada de acordar sempre numa cama vazia e de ouvir todas as manhãs o silêncio trespassando-lhe as paredes da casa. Talvez ela sonhasse todas as noites com os ruídos de uma criança a correr pelos corredores soltando longas gargalhadas debaixo do olhar vigilante dos pais.
Sim, isso seria o suficiente para que aquela mulher sem nome quisesse acabar de vez com a maldita dor que sentia no peito. Clara conhecia bem essa dor e sabia como ela podia ser cruel e desgastante.
Mas poderia também não ter sido um suicido e aquela morte não passaria de um brutal descuido da parte daquela senhora.
Então ela imaginou duas pessoas discutindo com vozes alteradas e muitas palavras cuspidas sem qualquer sentimento da boca para fora. Se aquela mulher tivesse dito as palavras erradas à pessoa certa ou se tivesse escutado meias palavras poderia ter ficado perturbada e por minutos ter esquecido da realidade.
Naquela cabeça desesperada com a ideia de ter perdido o seu amor não haveria espaço para os carros na rua muito menos para passadeiras ao atravessar a rua. Não havia mais nada naquele olhar, só a imagem daquele homem, o resto do mundo ela tinha apagado.
E se as palavras que foram ditas ecoassem com força nos ouvidos naquele preciso momento, talvez a mulher nem tivesse ouvido o buzinar estridente do carro que a atropelou e assim tivesse avançado como um cordeiro inocente prestes a ser sacrificado.
Agora o pensamento de Clara parecia uma lista telefónica muito extensa com muitas ideias prontas a serem folheadas. Havia tantos motivos para aquela morte que Clara seria incapaz de mencionar todos.
Mas mesmo assim foi tentando enumerá-los enquanto caminhava no passeio com uma passada lenta e cadenciada.
Imaginou dividas de jogo conseguidas numa mesa de poker num casino luxuoso e cheques com quantias gordas a serem assinados pelas mãos franzinas daquela mulher e tossiu com o cheiro a tabaco que subitamente lhe invadiu a garganta.
Vieram-lhe à ideia embalagens de calmantes tomados ao deitar numa tentativa desesperada de trazer o sono à sua cama e o copo de whisky vazio na mesinha de cabeceira do quarto da falecida com uma garrafa ainda por abrir colocada ao lado de uma já meio cheia .
Teria sido este o cenário daquela mulher na noite anterior à sua morte? Estaria sozinha? Ou teria tido uma noite escaldante de sexo na cama de algum estranho engatado num qualquer bar lambido?
Talvez ela simplesmente estivesse a pagar os erros cometidos no passado ou mesmo no presente. Deve haver lá em cima um cobrador de almas à semelhança das finanças nos cobram os impostos e se ultrapassamos a data limite de pagamento são nos cobradas as dívidas e com juros.
Pobre mulher que não pagou as suas dívidas a tempo!

continua....

Daniela Pereira

Sunday, July 09, 2006

Compra-me o sorriso daquela montra ( 1º EPISÓDIO )





Esta manhã, Clara saiu de casa com um andar despreocupado e os bolsos vazios. Hoje ela sabia que não teria nada para comprar com moedas porque os seus beijos serviriam de pagamento. Além disso o seu objecto mais cobiçado estava ainda plantado num jardim com os pés bem assentes na terra apenas baloiçando para o vento que soprava descontraído. Era bonita aquela tulipa negra que ela tinha visto ontem à noite durante o seu passeio nocturno. Poderia não a ter visto, mas ontem estava um luar tão luminoso e com as estrelas como lanternas ,Clara não teve dificuldade em descobrir aquela flor erguida na relva.
Durante largos minutos, ela ainda ficou de olhos semicerrados a imaginar que alguém passaria ali e gentilmente colheria aquela preciosidade para ela e com um sorriso rasgado estenderia a mão para depositar aquela flor junto do seu peito.
A noite estava tão silenciosa , que o seu suspiro profundo ecoou na paisagem calada e a pobre rapariga sentiu que o seu rosto adquiria um tom avermelhado impróprio para a sua tez normalmente caiada. Mas como ela estava ali sozinha foi-se esquecendo do embaraço e sorriu deliciada com a sua fantasia inocente.
Agora e depois de uma noite bem dormida, Clara já não sonha e apenas caminha pela rua olhando a realidade que a cerca. São duas e um quarto, e os corredores do centro comercial enchem-se de saltos altos barulhentos e conversas animadas, mas Clara mantém a sua boca bem fechada enquanto se vai desviando agilmente de alguns sacos que surgem na sua direcção sem mostrarem disponibilidade para evitar um choque que se aparenta iminente.
As montras são apetitosas ao olhar, recheadas de tentações sedosas e coloridas fazendo crescer os rostos colados aos vidros das montras .Clara ,é apenas só mais um rosto encantado entre tantos ,que já ocupam o seu espaço naquele circo de ilusões. Mas um desvio rápido do olhar para aquele rectângulo de cartão discretamente pendurado nos manequins faz perder toda a magia daquele momento. De repente, os charmosos manequins tornam-se disformes aos olhos de Clara, e aqueles tecidos luxuosos que lhes vestem o corpo de plástico parecem-lhe agora trapos velhos. Para que quero eu trapos velhos? Pergunta entre os dentes , enquanto baixa a saia que encorajada por mais uma rajada de vento teima em lhe por a descoberto as pernas franzinas .
Num gesto impulsivo, põe a mão na carteira vazia e vai invejando os sorrisos que saem das lojas brilhando como novos. No seu pensamento regressa então a imagem daquela tulipa negra combinando com os seus olhos de carvão e também ela sorri ...e eu juro por Deus que aquele sorriso era o mais bonito de todos os que estavam à venda naquela montra.

continua...

Daniela Pereira