
in "Love in Every Breath 2 by Alisia VR- deviantART
"O ruído da consciência "
Estava tudo preparado para a “Grande Noite", mas o La Féria não tinha sido convidado tendo em conta que o homem já não tinha idade para sofrer emoções fortes. Este era um acontecimento para ser vivido a dois...sem intrusos. Naquele quarto só estariam Clara e o seu Tozé, por isso todos os seres de duas patas teriam entrada proibida, o mesmo aconteceria com os de quatro patas que seriam afastados carinhosamente para casa da vizinha. Agora, quanto aos incómodos insectos com asas e ruídos de fundo é que a coisa não corria assim tão bem. Como a noite estava invulgarmente quente e húmida, existia uma espécie de hora de ponta para a comunidade de mosquitos que rodeavam o apartamento. Pois bem, os tradicionais insecticidas e mesmo as técnicas inovadoras para massacre de insectos para grande desespero de Clara não se revelaram muito funcionais. Assim sendo, o quarto de Clara e do Tozé encontrava-se habitado por alguns mosquitos profundamente irritantes. Mas esse teria de ser um mal menor! Clara, pensou numa solução alternativa para disfarçar a presença daqueles surripadores de silêncio e achou que um cd com uma música intima e convidativa seria o ideal para tornar o ambiente daquele quarto mais acolhedor. Para além, é claro, de ser uma bela forma de abafar os zumbidos dos mosquitos. Talvez, o Tozé com alguma sorte não desse pela sua presença...
Parecia estar tudo perfeito no seu pensamento, no entanto à medida que as horas passavam Clara começava a sentir que as dúvidas a assaltavam. Estaria a proceder bem? Seria esta a melhor forma de recuperar a sua relação?
Uma noite de sexo fervoroso seria suficiente para que o seu Tozé a voltasse a olhar com os mesmos olhos apaixonados? Havia uma voz que teimava em lhe dizer que não!! E esta voz que Clara ouvia retorquindo baixinho no seu ouvido era muito insistente e parecia saber o que dizia. Ainda teve por impulso a ideia de espreitar debaixo da cama para ver se estaria lá alguém escondido, mas logo percebeu que não, que aquela voz que ela ouvia era a dela. Talvez fosse aquilo, o que ouvia chamar de “Voz da consciência”. Sim, deveria ser, até porque tinha aquela mania de estar sempre a bater na mesma tecla algo que lhe era muito familiar. Clara era uma pessoa extremamente insistente e demorava imenso tempo a se dar por vencida em qualquer assunto. No emprego os colegas apelidavam-na de Clara a “bate pedras “ porque diziam que ela era tão teimosa e casmurra que era pior que uma pedra de tão dura que era de roer. Quando sentia que tinha razão em algo, não havia nada a fazer para a convencer do contrário. É que nada mesmo! Podiam ser vinte pessoas a concordar com o mesmo , a apresentar todos os tipos de argumentos possíveis e impossíveis mas se Clara achava que estava certa nas suas teorias nem o Papa a convencia do contrário.
Mas esta característica de Clara jogava muitas vezes a seu favor, porque fazia dela uma mulher cheia de garra e de convicções fortes e os homens apreciam isso nas mulheres. Ela podia até ter um lado frágil que a tornava numa eterna apreciadora de segurança, mas ela também sabia bem o que queria numa relação e não desistia facilmente de o conseguir.
Os homens que passaram pelas suas mãos consideravam-na uma experiência enriquecedora, invulgar e única. Mesmo quando só efectuavam curtas paragens no mundo complexo de Clara eles sentiam que depois de provarem os pensamentos daquela mulher, haveria sempre algo que nunca mais seria o mesmo no seu mundo de esfomeados.
Então, se Clara era assim tão decidida de onde viriam aquelas dúvidas que lhe estavam a esmagar o peito com tantas incertezas? Talvez Clara, amasse realmente aquele homem e isso parecia mudar tudo. Tornava-a hesitante até mesmo nas suas certezas, como se cada gesto agora não pudesse ser natural e tivesse que ser cuidadosamente planeado. Nada daquilo lhe fazia sentido, ter que pensar antes de agir? Onde estava aquela impulsividade que a fazia trepar uma árvore só para poder ver o luar mais de perto?
Sentia que estava a perder tudo aquilo, que os sentimentos estavam a tornar-se em nós cegos muito difíceis de desatar . Estava prisioneira de um medo e de uma insegurança que se preparavam com malícia para a tornar em escrava das suas vontades. Não podia ser, nenhum sentimento a poderia mudar, não era justo! Clara tinha demorado muito a moldar a sua maneira de ser, a assimilar todas as conquistas e a aprender a lidar com todas as derrotas na sua vida. Não era uma pessoa fácil, sabia-o bem porque a intensidade que possuía era muitas vezes como uma panela de pressão pronta a explodir a qualquer momento. Mas ela era assim, livre nos seus pensamentos e sentia-se bem a vomitar tudo o que a incomodava mesmo que para isso tivesse que sujar a imagem que as pessoas tinham de si. Sim, porque as pessoas por vezes olhavam para Clara como se ela ainda fosse uma criança cheia de sonhos e ilusões na cabeça.
Mas a cabeça da Clara hoje não estava para fantasias, estava até bem séria e compenetrada com graves pensamentos agendados na sua ordem de serviços.
Seria mesmo o sexo que estaria a falhar na sua relação? Não poderia ser algo mais profundo? Algo que não se rasparia do corpo só com uma montanha de lençóis suados!! Talvez fosse porque ela não se interessava afincadamente pelos mesmos gostos que o Tozé. Sim poderia ser essa uma das razões!
O Tozé era por exemplo gajo para sair todos os domingos e ir ver a bola com os amigos. Sim, ele saía religiosamente quase todos os fins de semana para ir à catedral do futebol...o Estádio do Dragão. Nos dias em que havia jogo, ele acordava mais cedo e raramente dormia bem na noite anterior. Por vezes, Clara até acordava a meio da noite porque ele gritar bem alto a contagem dos golos no relvado durante o sono. E para desespero da pobre, eram sempre vitórias de 3 a 0 e mais!! Isto é o que tem de bom os nossos sonhos...permitir desejar tudo em grande.
Depois dos jogos, Tozé ia beber a sua cervejola com os amigos para festejar as vitórias ou então para afogar as mágoas das derrotas. Tudo era desculpa, para uma bela rodada de cerveja num bar. Era uma atitude que por vezes a irritava profundamente, e por isso sempre que ele chegava tarde a casa Clara tinha a mania de refilar um pouco.
Dizia que eles podiam ter aproveitado a tarde de sol para irem dar um passeio à beira mar, para fazerem uma corridinha ou mesmo para ficarem sentadinhos no banco do jardim a namorar. Mas não, ele tinha logo que preferir ir ao futebol e deixá-la ali sozinha a dar de comer aos pombos. Uii, nesses dias era certo e sabido que ela ficava pior do que uma arara!!
Geralmente Tozé, não era homem para se exaltar e resolvia a disputa com imensa mestria. Atirava um olhar de cordeirinho e com um “desculpa linda” todo adocicado acompanhado com uma promessa de que na próxima semana o Porto jogava fora e eles já podiam passar o domingo juntinhos ele conseguia sempre chegar a um acordo.
O que Clara pensava agora, é que se ela em vez de passar a vida a atormentá-lo com o que ele poderia fazer opta-se por ir também com ele á bola...não seria uma atitude mais inteligente da parte dela? Até porque ela gostava de ver futebol, e era mesmo uma portista ferranha como ele só que não se manifestava tanto porque achava que não ficava bem a uma mulher ir praguejar contra os árbitros num estádio. E ela sabia bem que se fosse, ia ser pior que uma peixeira a apregoar o seu peixe!! Daí preferir ficar por casa e não arriscar fazer figuras tristes.
E mesmo que ela não fosse ao futebol com ele para manter a sua reputação imaculada, podia sempre ir com ele depois até ao bar do Xico Fula comer uns tremoços e beber umas cervejinhas. O único problema é que Clara não suportava o sabor da cerveja porque tinha um gosto muito amargo e ela era mais adepta de bebidas doces. Mas ela até que podia pedir como alternativa um sumo de maçã... daqueles sumos com gás que se vendem nos supermercados a preços baixos .Ela podia fingir que aquilo era cerveja! Não seria uma má ideia para que ela se pudesse confundir com o resto da malta .A cor era a mesma ou pelo menos era parecida e nem mesmo a espuma tradicional faltaria naqueles refrigerantes “carbonizados” porque eles têm sempre muito gás carbónico. Bem, esta não seria a palavra correcta para os mencionar, mas Clara pensava que deveria ser tendo em conta o que eles faziam ao estômago ao fim de algum tempo.
Enquanto fitava atentamente o tecto do quarto, ela ia ganhando a noção que existiam muitos momentos que ela não partilhava com ele. E mesmo parecendo pormenores sem grande importância numa vida a dois, estes poderiam bem ser os causadores daquele abalo que o seu relacionamento parecia estar a sofrer.
E foi por pensar assim, que Clara começou a reconsiderar a sua forma de abordagem. O Tozé parecia ter perdido o interesse por ela, estaria distante dos seus desejos e necessidades e ela sentia isso de um modo muito marcado nos momentos que com ele passava. Teria que existir uma razão para aquela mudança, um motivo...um porquê! De que lhe iria valer criar um ambiente avassalador para que o clima entre os dois aquecesse, se logo a seguir ele poderia simplesmente bater a porta e sair já todo regalado? Então, teria sido tudo em vão! Uma conversa franca poderia ser o caminho mais seguro para apurar toda a verdade.
Sendo assim, o melhor a fazer ,talvez fosse imaginar um jantar calmo a dois, com uma pitada de romantismo mas sem excessos, só mesmo um pouco de vinho para libertar a língua e ajudar a conversa a fluir com mais naturalidade. Depois ela iria simplesmente olhar nos olhos dele sem nunca desviar o olhar e segurando-lhe carinhosamente as mãos perguntaria apenas...ainda me amas?
Daniela Pereira- 10/09/06